quarta-feira, 12 de outubro de 2011

«Erosão» de Fernando Namora

Autorretrato
Fernando Namora nasceu em Condeixa-a-Nova, em 1919, e faleceu em Lisboa,em 1989. Foi médico e escritor duma vasta obra que, durante os anos 70 e 80, foi das mais divulgadas e traduzidas. Mas a sua estreia foi com uma coletânea de poemas, quando era muito jovem, em 1938. O seu terceiro livro de poesia, em 1941, teve a importância histórica de iniciar a coleção Novo Cancioneiro e contribuiu decisivamente para fixar certas linhas rurais e humanitárias do neorrealismo na poesia. Seguiu-se um longo silêncio poético, regressando no entanto mais tarde à poesia, com o livro As Frias Madrugadas e Marketing. Sendo tão  pouco divulgada a obra de Fernando Namora poeta, faz todo o sentido lembrá-lo aqui:
Erosão

As terras envelhecem como as pessoas.
São meninas
são adultas
são caducas.
Dói ver morrer
mesmo sendo casas pedras.
Dói que o silêncio
entre nas aurículas
e aí seja musgo
paz saqueada.
Dói tanta coisa:
até um western
numa cidade fantasma.
Dói tudo o que finda
e a findar nos mata.

As terras envelhecem como as pessoas.
São hoje
são amanhã
são ontem.
São futuro
são urtigas
são remorso.
São o próprio desejo
de acabar.

                                                    Marketing

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