sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

«Paz de amor» de Odylo Costa, filho





Odylo Costa, filho (1914-1979) foi um jornalista, cronista, novelista e poeta brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras.


 O mundo e o nosso planeta terra precisam de muitas coisas, mas de duas mais do que as outras: Paz e amor.
Escolhi este soneto de Odylo Costa, filho, que nos deixa a esperança que, mesmo nos piores cenários, «sempre em nós renascerão searas, dos rochedos brotará nova chuva e que um novo amor vencerá  a morte e o medo»


Paz de amor


Calemos esta paz como um segredo
de amor feliz. Não seja este silêncio
ponto final em nosso terno enredo:
não nos encerre o amor, antes condense-o.

Olhemo-nos nos olhos face a face.
sem recuar surpresos como o amigo
que de repente no outro deparasse
apenas o lembrar do tempo antigo.

Não. Sempre em nós renascerão searas.
novas chuvas trarão nova colheita.
folhas novas, translúcidas e raras.

E brotará da tua mão direita
água súbita e casta do rochedo
um novo amor, que vença a morte e o medo.

Odylo Costa, filho




domingo, 26 de janeiro de 2020

Os gatos de Bordalo Pinheiro




Rafael Bordalo Pinheiro gostava muito de gatos, tendo em consideração a variedade com que os representou.
Podemos encontrá-los no Museu Rafael Bordalo Pinheiro, no Campo Grande ou nas Caldas da Rainha, onde se situa a Fábrica.

Aqui ficam alguns deles:


Como são animais que gostam de vadiar pelos bairros de Lisboa, cito também o poema que escrevi sobre a Mouraria:



Mouraria


Por aquele misterioso Beco das Flores

Bem escondido dos deuses e dos homens

Tudo é segredo, nada acontece

Para além do sol que pinta os muros brancos

Um gato preto que se espreguiça

Um pardal que esvoaça no céu sem cor

Alguém que espreita à janela sorrateiramente

Ou um velho trôpego que se dirige

À tasca da esquina, lentamente

Para expulsar os seus fantasmas, as suas dores…

É por aquele misterioso Beco

Que passo um dia e fico cativa.



Naquele secreto e minúsculo Beco das Flores

Onde no Inverno os dias são noites

E as noites dias, com fados e guitarradas

Apenas o silêncio escorre pelas paredes

Nada acontece de visível

Para além do frio e da chuva

E da passagem da moura cativa.



O sol deixa de brilhar

O gato de se espreguiçar

O pardal de esvoaçar

Ninguém na janela a acenar

Nem novo nem velho

Na tasca da esquina bebe

O sino da igreja emudece

Nada acontece de plausível…



Apenas o lento e monótono girar do universo

Que é tudo e é nada

No quieto e mudo Beco das Flores

Que me transforma em moura encantada.








quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Convento de Santos-o-Novo, em Lisboa



Em Lisboa há sempre mais coisas para descobrir, hoje foi o Convento de Santos-o-Novo, bem colocado em frente ao Tejo (hoje cinzento), para ser bem visto desde a banda de lá, e com um plano megalómano que não se chegou a realizar. 


O seu estado está bastante degradado, principalmente nos muros exteriores, com um aspecto de abandonado durante muitos anos, o que não abona em seu favor, nem da Câmara de Lisboa, a quem pertencia.
O mesmo não acontece no seu interior, onde existem vários espaços de acolhimento, entre eles uma residência para estudantes (sortudos).
Tão bonito e tão forte que nem o Terramoto o destruiu.


Agora precisa de obras urgentes (a Câmara cedeu-o à Santa Casa da Misericórdia que já começou os restauros, o custo das visitas(4 euros) está a ser usado para isso e as peças vão sendo expostas). 

Contem vários tesouros: o seu enorme claustro, os azulejos, a igreja, os ossos dos três santos de Lisboa, encontrados por acaso dentro de um caixote, muitos documentos …
Vale a pena visitá-lo.


sábado, 11 de janeiro de 2020

«Medronheiro» de Fernando Reis Luis


Em Monchique, deve haver muitos medronheiros, pois encontrei um poema de Fernando Reis Luis, composto especialmente para ser cantado pelo Grupo Coral da Confraria do Medronho «Os Medronheiros».

Esta bela serra carrega o peso dos incêndios de verão que anualmente ocorrem, mas geralmente a floresta rapidamente recupera e é ideal para caminhadas num mar de montanhas, a poucos quilómetros das praias do Atlântico.
Ainda me falta fazer estes percursos, há sempre mais viagens, há sempre mais mundo para ver.



No local mesmo onde moro, a caminho de Moscavide, existem vários medronheiros que só há pouco tempo descobri.
Os seu frutos são lindos, falta-me ver as suas flores brancas e as borboletas do medronheiro, verdadeiras maravilhas de cores vivas.


tem flores branquinhas
este medronheiro
com muitas folhinhas
todo o ano inteiro.
Refrão
é verde, amarelo
é fruto de sonho
redondo tão belo
vermelho o medronho.
2 - sem folhas nem ramos
no cesto lá ponho
e juntos cantamos
ao lindo medronho.
3 - de encostas a pique
nos campos da serra
a bela Monchique
é a nossa terra.
4 - e o tempo passado
numa cura lenta
o mosto é dourado
enquanto fermenta.
5 - aromas já lega
na dorna dormindo
no frio da adega
o março vem vindo.
6 -fogueira que arde
sob o alambique
de noite e de tarde
em toda a Monchique.
7 - no cântaro corre
e fico risonho
quando ele escorre
já puro medronho.
8 - o pão com choriça
também nos atesta
depois desta liça
que venha a festa.
Fernando Reis Luís
(Monchique)
Canção criada para o Grupo Coral da Confraria do Medronho "Os Monchiqueiros"



quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

«Boa Noite» de Sidónio Muralha



Sidónio Muralha (Lisboa, 29 de julho de 1920 - Curitiba, 8 de dezembro de 1982) foi um escritor português
Escreveu poesia, prosa (ficção e ensaio), bem como literatura infantil, género no qual mais se notabilizou. 
Este é um dos seus mais simples poemas, sobre a zebra, «o cavalo às riscas».

Boa Noite
A zebra quis
ir passear
mas a infeliz
foi para a cama

-teve de se deitar
porque estava de pijama.

In  Portugal

Um outro poema seu foi musicado e cantado por Manuel Freire, «Pequenos deuses caseiros», que podem ouvir no link seguinte:

https://www.youtube.com/watch?v=FWhaAAmTuSY


terça-feira, 7 de janeiro de 2020

«O cacilheiro» de Ary dos Santos e Paulo de Carvalho

Verdadeiro hino ao barco que levava milhares de pessoas de Lisboa para a banda de lá, e vice-versa, atravessando o rio Tejo por vezes calmo, outras com ondas agitadas e bastantes solavancos, são estes versos de Ary dos Santos, musicados por Paulo de Carvalho e cantados por Carlos do Carmo. E, como previu o poeta, o cacilheiro foi embora, substituído por barcos mais modernos (mas nem sempre melhores) e o Tejo ficou mais triste.





O Cacilheiro

Música: Paulo de Carvalho
Letra: Ary dos Santos


Lá vai no Mar da Palha o Cacilheiro,
comboio de Lisboa sobre a água:
Cacilhas e Seixal, Montijo mais Barreiro.
Pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa.

Na Ponte passam carros e turistas
iguais a todos que há no mundo inteiro,
mas, embora mais caras, a Ponte não tem vistas
como as dos peitoris do Cacilheiro.

Leva namorados, marujos,
soldados e trabalhadores,
e parte dum cais
que cheira a jornais,
morangos e flores.
Regressa contente,
levou muita gente
e nunca se cansa.
Parece um barquinho
lançado no Tejo
por uma criança.

Num carreirinho aberto pela espuma,
la vai o Cacilheiro, Tejo à solta,
e as ruas de Lisboa, sem ter pressa nenhuma,
tiraram um bilhete de ida e volta.

Alfama, Madragoa, Bairro Alto,
tu cá-tu lá num barco de brincar.
Metade de Lisboa à espera do asfalto,
e já meia saudade a navegar.

Leva namorados, marujos,
soldados e trabalhadores,
e parte dum cais
que cheira a jornais,
morangos e flores.
Regressa contente,
levou muita gente
e nunca se cansa.
Parece um barquinho
lançado no Tejo
por uma criança.

Se um dia o Cacilheiro for embora,
fica mais triste o coração da água,
e o povo de Lisboa dirá, como quem chora,
pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa.

https://www.youtube.com/watch?v=mnAojJcUm_Q

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

Jardim da Estrela e Lapa




Depois de uma época festiva agitada, lá fomos na manhã de domingo, a seguir ao Natal e Ano Novo, até ao Jardim da Estrela, tomar o café e matar saudades das árvores, pois flores agora há poucas.

João de Deus

O sol mostrou-se benigno e amenizou o frio, que era bastante.



Agora, com as árvores completamente despidas, a paisagem é outra, tudo se vê com mais nitidez.



As estátuas ganham mais relevância, e olham-se como se fosse a primeira vez que as descobríamos.

 da Preguiça ou O Despertar, O Cavador, João de Deus, etc. 

A Preguiça ou O Despertar


O Cavador

E até à Lapa é um pulo, para ver os palacetes e casas antigas, que ao  caírem deram lugar ao novo luxo.


quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

2020 - A pobreza continua


Em Portugal, um em cada cinco portugueses é pobre. 
Vai ser mais um ano de dificuldades para a população em geral (excepto banqueiros que continuam à solta, políticos corruptos, americanos ricos e chineses que compram tudo e se safam bem dos impostos). 
Mas somos o País da Esperança e esta é a última a morrer (o quadro é de Sorolla, da sua fase realista).
Uma das que tem de partir de novo e deixar o seu país é a minha filha, que lá vai amanhã de autocarro até à Alemanha durante dois dias e duas noites, deixando um lugar vazio na casa e muita saudade no coração.
Boa viagem filha, até breve!!