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terça-feira, 15 de dezembro de 2020

«Quando um homem quiser» de Ary dos Santos

 


Tu que dormes à noite na calçada do relento

numa cama de chuva com lençóis feitos de vento

tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento

és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que dormes só o pesadelo do ciúme

numa cama de raiva com lençóis feitos de lume

e sofres o Natal da solidão sem um queixume

és meu irmão, amigo, és meu irmão

Natal é em Dezembro

mas em Maio pode ser

Natal é em Setembro

é quando um homem quiser

Natal é quando nasce

uma vida a amanhecer

Natal é sempre o fruto

que há no ventre da mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar

tu que inventas bonecas e comboios de luar

e mentes ao teu filho por não os poderes comprar

és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei

fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei

pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei

és meu irmão, amigo, és meu irmão


Poema: Quando o homem quiser, de...
Ary dos Santos, in 'As Palavras das Cantigas


Casa onde viveu Ary dos Santos, na Rua da Saudade, Alfama

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

«O cacilheiro» de Ary dos Santos e Paulo de Carvalho

Verdadeiro hino ao barco que levava milhares de pessoas de Lisboa para a banda de lá, e vice-versa, atravessando o rio Tejo por vezes calmo, outras com ondas agitadas e bastantes solavancos, são estes versos de Ary dos Santos, musicados por Paulo de Carvalho e cantados por Carlos do Carmo. E, como previu o poeta, o cacilheiro foi embora, substituído por barcos mais modernos (mas nem sempre melhores) e o Tejo ficou mais triste.





O Cacilheiro

Música: Paulo de Carvalho
Letra: Ary dos Santos


Lá vai no Mar da Palha o Cacilheiro,
comboio de Lisboa sobre a água:
Cacilhas e Seixal, Montijo mais Barreiro.
Pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa.

Na Ponte passam carros e turistas
iguais a todos que há no mundo inteiro,
mas, embora mais caras, a Ponte não tem vistas
como as dos peitoris do Cacilheiro.

Leva namorados, marujos,
soldados e trabalhadores,
e parte dum cais
que cheira a jornais,
morangos e flores.
Regressa contente,
levou muita gente
e nunca se cansa.
Parece um barquinho
lançado no Tejo
por uma criança.

Num carreirinho aberto pela espuma,
la vai o Cacilheiro, Tejo à solta,
e as ruas de Lisboa, sem ter pressa nenhuma,
tiraram um bilhete de ida e volta.

Alfama, Madragoa, Bairro Alto,
tu cá-tu lá num barco de brincar.
Metade de Lisboa à espera do asfalto,
e já meia saudade a navegar.

Leva namorados, marujos,
soldados e trabalhadores,
e parte dum cais
que cheira a jornais,
morangos e flores.
Regressa contente,
levou muita gente
e nunca se cansa.
Parece um barquinho
lançado no Tejo
por uma criança.

Se um dia o Cacilheiro for embora,
fica mais triste o coração da água,
e o povo de Lisboa dirá, como quem chora,
pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa.

https://www.youtube.com/watch?v=mnAojJcUm_Q

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

«O Homem das Castanhas» de Ary dos Santos



Com o frio, sabem sempre bem umas castanhas quentes, assadas pelos vendedores ambulantes nos seus carrinhos com assadores de barro, agora substituídos por alumínio, que felizmente já estão melhor na vida, pois o negócio sai mais rendoso com os muitos turistas e a dúzia da castanha assada já se paga bem: 2 euros e meio este ano.
Por mim, não me queixo do preço, porque ter o trabalho de as assar em casa é impossível por agora, o braço não o permite. 
E é sempre diferente comê-las na rua, tirando-as bem quentes dum cartucho de papel e saboreá-las lentamente.
Em casa tem a vantagem de serem acompanhadas com jeropiga, uma ótima  bebida também para aquecer os corações.
Este poema de Ary dos Santos expressa bem o que representa na paisagem das cidades esta figura popular, e é interpretado com a voz magnífica de Carlos do Carmo, que este ano completou oitenta anos de vida.


«Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.»


O Homem das Castanhas

Na Praça da Figueira,
ou no Jardim da Estrela,
num fogareiro aceso é que ele arde.
Ao canto do Outono, à esquina do Inverno,
O Homem Das Castanhas é eterno.
Não tem eira nem beira, nem guarida,
e apregoa como um desafio.
É um cartucho pardo a sua vida,
e, se não mata a fome, mata o frio.
Um carro que se empurra,
um chapéu esburacado,
no peito uma castanha que não arde.
Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado
o homem que apregoa ao fim da tarde.
Ao pé dum candeeiro acaba o dia,
voz rouca com o travo da pobreza.
Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais calor p'ra casa.
A mágoa que transporta a miséria…




https://www.youtube.com/watch?v=1PN0zy0XaOQ