sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Recordações e memórias em tempos de confinamento



A memória pode ser uma forma de sobrevivência, pois através dela aprendemos como os nossos pais, avós...viveram, sofreram e sobreviveram. Ela aumenta também a hormona do amor e da felicidade, por isso nestes tempos duros todos se recordam de factos e pessoas que foram tão importantes para nós.



Não é só nostalgia, como alguns mais jovens pensam, é mais do que isso. E quando se junta a memória da pedra (esta fonte do palácio da Vila em Sintra ali permanece há séculos) e dos lugares é melhor ainda.

Na 1ª foto vê-se a minha mãe muito jovem e o meu avô Mariano, um verdadeiro andaluz de Sevilha.






terça-feira, 26 de janeiro de 2021

 



E assim tudo começou.

Num jardim perto de casa, este pequenino ninho continua agarrado ao ramo escolhido para ser construído e para ser o lar e a continuação da espécie dos pássaros que o fizeram. E com sucesso, porque há já vários anos que lá está.

Pequeno mas firme.




O pequeno ninho cá continua

Há vários anos, é um segredo

Nenhuma tempestade o destruiu

Ninguém o viu ou derrubou

Foi obra feita com amor

O aconchego da pequenina ave

Que tremendo, enfim voou.





sábado, 23 de janeiro de 2021

 "Nós temos de conseguir uma resposta e direção contrária à covid-19, ter respeito pelos outros e acatar essas instruções [de prevenção], tão simples", dadas pelas autoridades de saúde, disse o autor à Lusa.

O escritor moçambicano cumpre hoje o 10.º dia de isolamento domiciliar, desde que foi diagnosticado positivo para o novo coronavírus, apresentando-se com sintomas leves, entre cansaço e dores musculares.

Mia Couto alertou para as implicações "profundíssimas" da covid-19 a nível social, económico e humano, além da saúde, considerando que a doença "empurra para uma situação de agonia, solidão e abandono".

"Quando me comunicaram, o medo que me assaltou foi o de um tipo de morte solitária, foi essa a construção que fiz", contou Mia Couto.

"Nós já temos vacina. Chama-se máscara, chama-se distanciamento. Portanto, temos as vacinas que serão, até daqui a alguns meses, a nossa arma principal", declarou (à Lusa).



Mia Couto, que fique bem porque é necessário junto de nós.


O Espelho

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.
Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.
A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

No livro “Idades Cidades Divindades


Felizmente, no dia 27 de Janeiro, fomos informados que Mia Couto já se encontra recuperado.
Uma grande notícia.


quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

«Afinal a melhor maneira de viajar é sentir» de Álvaro de Campos

 Tempo de pensar cada dia como uma viagem.

Imagem insólita do Chiado.


«Afinal a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.»
Álvaro de Campos

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

A montanha russa (2021)

                                exposição de Cruzeiro Seixas em Dezembro de 2020

Depois de uma passagem de ano com fogos de artifícios e muito barulho para exorcizar os malefícios do malfadado ano de 2020, fazendo votos que o vírus acabasse depressa, que as vacinas chegassem para todos e fizessem mesmo efeito, eis que logo no dia 6 de Janeiro fomos surpreendidos pelos tristes acontecimentos no Capitólio nos EUA, inqualificáveis actos de um demente e arrogante Trump que incentivou as suas «tropas» para atacar o que ele nunca respeitou: os direitos dos que votaram contra ele e a democracia.

Esperemos que nada mais aconteça desta gravidade num país de quem tanto esperamos para ajudar a resolver as crises com que o mundo se confronta, já que tantos outros problemas o assolam diariamente: alterações climáticas que vão cada vez mais destruindo o nosso planeta, guerras, fome e miséria, doenças, violência...


                                  exposição de Cruzeiro Seixas em Dezembro de 2020

Mas continuamos com fé e muita esperança num futuro melhor, para os nossos filhos e para todos. Cada dia é como um carrocel, para baixo e para cima, e mesmo nestes dias de pandemia, de frio e de confinamento, que nos retiram quase tudo que nos fazia felizes, continuamos a lutar e a ter esperança.


O ano de 2021 continua a ser uma montanha-russa.

Esta é a versão do poema que tinha escrito nos longínquos anos 90, que foram bem melhores.


exposição de Cruzeiro Seixas em Dezembro de 2020

Montanha-Russa


Cada dia é uma montanha

Que temos de escalar pedra a pedra

E depois descer com mil cautelas

Montanha-russa na Feira da Vida

Subimos e descemos

Choramos e rimos

Juramos que nunca mais repetimos

Mas sempre de novo somos atraídos

Já estamos cansados, exaustos

Corpo dorido, pés sofridos

Mas continua a ser preciso

Escalar a montanha da Vida



exposição de Cruzeiro Seixas em Dezembro de 2020

sábado, 16 de janeiro de 2021

As azedas



As azedas, ou erva-canária, erva-azeda-amarela...começa a florir os campos a partir de janeiro e as suas flores são simples e coloridas. Não se deviam chamar azedas, mas deve haver uma razão.

As crianças gostam de fazer raminhos delas, lembro-me da minha menina vir a apanhá-las pelo caminho, juntamente com malmequeres e outras flores que ainda se podiam encontrar por entre os prédios, e oferecer-mas quando chegava a casa.

Boas recordações em tempos agrestes e difíceis.
«Olhai os lírios (e as azedas) do campo» (Érico Veríssimo)




sábado, 9 de janeiro de 2021

Passeriformes no inverno

 A um passarinho


Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!
Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis
Deixe-te de histórias
Some-te daqui.

Vinicius de Moraes



Este inverno de 2021 está a ser extremamente duro, com temperaturas mais baixas do que é costume no nosso país e noutros da Europa, com muita neve em vários locais, de norte a sul.

Mais uma dificuldade a juntar-se à pandemia do Covid 19, que está também a propagar-se cada vez mais. Um mal nunca vem só!

Penso muitas vezes  nos pequenos seres da natureza nestes tempos tão duros também para eles. Como se defendem os pequenos pássaros como os pardais, os chapins, etc, para se defenderem. Através da revista Wilder fiquei a conhecer algumas «técnicas» que eles têm para se defenderem.

Aqui ficam algumas:

Como é que as aves resistem à chuva e ao frio?

 

Com a chegada do Inverno muitas aves migram para África, mas outras permanecem nos locais onde nasceram, incluindo os pequenos passeriformes. João Eduardo Rabaça, da Universidade de Évora, explica como estas espécies fazem frente às temperaturas mais baixas.

O Inverno chegou e os dias ficam mais frios e chuvosos. Para os passeriformes, esta é uma altura “exigente”: “Noites longas e temperaturas baixas obrigam estas aves a encontrarem energia extra”, nota João Eduardo Rabaça, que é professor da Universidade de Évora e coordenador do LabOr – Laboratório de Ornitologia.

Estas pequenas aves dedicam-se a acumular “as reservas de gordura suficientes que lhes permitam sobreviver”, pelo que passam a maior parte do dia a comer. De acordo com o British Trust for Ornithology, os chapins-azuis (Cyanistes caeruleus) – que podemos observar em muitos espaços verdes, incluindo o Jardim Gulbenkian, em Lisboa – podem gastar cerca de 85% das horas de luz disponíveis num dia de Inverno em busca de alimento, refere este investigador.

Chapim-azul (Cyanistes caeruleus). Foto: Diogo Oliveira

Ao mesmo tempo, para os passeriformes em geral, o “revestimento plumoso permite a existência de bolsas de ar debaixo das penas, conferindo-lhes uma ajuda adicional para manterem o corpo quente.”  

Algumas espécies começam a preparar-se para a estação mais rigorosa do ano logo no Outono, como acontece com o pardal-comum (Passer domesticus), exemplifica. “Cresce-lhes uma penugem por baixo da plumagem principal aumentando o peso do revestimento do corpo em 70%! E assim asseguram uma melhor proteção térmica.”

Pardal-comum (Passer domesticus). Foto: Diogo Oliveira

Mas há ainda outras estratégias pouco conhecidas. Quando estão em actividade, a temperatura corporal das aves é superior à dos humanos, pois “ronda os 41ºC, embora haja variações.” No entanto, para enfrentarem noites mais frias, em algumas espécies a temperatura corporal chega a baixar 10ºC ou mais ainda – um processo designado por torpor ou heterotermia diária, adianta o investigador. “Desta forma, as aves conseguem economizar energia. O caso mais impressionante é de uma espécie de beija-flor que ocorre nos Andes e que durante a noite pode atingir uma temperatura corporal de 3,26ºC!”, revela o coordenador do LabOr. “É um exemplo extremo, mas é também um extraordinário exemplo da capacidade de adaptação destes animais.”   

Mais comum é a hipotermia regulada, que se traduz “numa redução da temperatura corporal mais modesta, normalmente à volta dos 5 a 6ºC.” Com este método, as aves precisam de muito menos energia para que o corpo regresse à temperatura “normal” quando chega a manhã.

Tordo-comum (Turdus philomelos). Foto: Diogo Oliveira

Mas apesar de estar mais frio por estes dias, a verdade é que “o Inverno no sul da Europa e em particular no nosso país é bastante ameno quando comparado com a realidade do centro e norte da Europa, por exemplo”. Por essa razão – lembra o investigador, que é também autor do livro “As aves do Jardim Gulbenkian” – são inúmeras as aves que no final do Verão deixam as regiões setentrionais para migrarem rumo a sul, onde vão permanecer durante a estação fria. É o caso por exemplo do lugre (Spinus spinus) e do tordo-comum (Turdus philomelos).


quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Um Ano Melhor de 2021




Depois de tudo o que se passou em 2020, depois de tantas mortes e de tanto sofrimento, não podemos iludirmo-nos com pensamentos irrealistas e demasiado sonhadores.

A única coisa que desejamos é que 2021 seja um ano melhor, com mais saúde e mais paz.





E o ano 2021 lá vai entrando

Sem som de foguetes

Nem panelas a bater

Mas com muita esperança

De que a vida se renove

E as marés continuem a subir e a descer

Até ao amanhecer.



Um Ano Melhor de 2021, sem pandemia



sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

«Ver com outros olhos» de Isabel del Toro Gomes





No dia em que soube que a operação que tinha feito à catarata do olho direito tinha sido bem sucedida, não obstante os riscos que corria, fomos rever o Jardim da Estrela, ainda a despertar.



Tudo me pareceu realmente novo, visto com outros olhos, sob um sol ainda morno.

Olhei e tornei a olhar. Era lindo, como sempre. 



Pequenas flores despontam

em camas de folhas secas

Gerações que se sucedem

De vida e de esperança

lilás branco amarelo
Verde muito verde

E os olhos que rejuvenescem

Contemplam atentos





terça-feira, 22 de dezembro de 2020

A nossa Borboleta-Zebra

 

A «nossa» borboleta-zebra já nasceu, abriu asas e voou.

Aprendi com ela muita coisa, como pequena criatura agarrada a uma folha resistiu a temporais, ventos e chuvas.

É o chamamento da natureza e da vida.


Voa voa por esse mundo e quem sabe, não nos tornaremos a ver?




terça-feira, 15 de dezembro de 2020

«Quando um homem quiser» de Ary dos Santos

 


Tu que dormes à noite na calçada do relento

numa cama de chuva com lençóis feitos de vento

tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento

és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que dormes só o pesadelo do ciúme

numa cama de raiva com lençóis feitos de lume

e sofres o Natal da solidão sem um queixume

és meu irmão, amigo, és meu irmão

Natal é em Dezembro

mas em Maio pode ser

Natal é em Setembro

é quando um homem quiser

Natal é quando nasce

uma vida a amanhecer

Natal é sempre o fruto

que há no ventre da mulher

Tu que inventas ternura e brinquedos para dar

tu que inventas bonecas e comboios de luar

e mentes ao teu filho por não os poderes comprar

és meu irmão, amigo, és meu irmão

E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei

fatias de tristeza em cada alegre bolo-rei

pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei

és meu irmão, amigo, és meu irmão


Poema: Quando o homem quiser, de...
Ary dos Santos, in 'As Palavras das Cantigas


Casa onde viveu Ary dos Santos, na Rua da Saudade, Alfama

sábado, 12 de dezembro de 2020

As varinas excerto de «Lisboa na rua» por Júlio César Machado



Lisboa na Literatura


“Já passaram alguma vez por aquelas vielas fuscas, tortuosas e escorregadias, que se chamam Calçada do Castelo Picão, a rua das Madres, o Beco da Peças, as Travessas do Pasteleiro, do Pé de Ferro, ou das Isabéis? Aí vivem, aí moram as varinas às onze e às doze em cada casa. Dormem à luz das estrelas, numas lojas térreas em que de verão se acende o lume à porta e de inverno no meio do chão, de porta e janela aberta, sem medo que as roubem, fazendo da canastra travesseiro e almofada do chapéu de Braga; partem de madrugada para a Ribeira ou ao encontro dos barcos de pesca; lá jantam por aí ao acaso nas tabernas, nas escadas, pela rua ; e à noite recolhem chilreando alegres como um bando de aves, com os filhinhos ao colo ou metidos nas canastras com o dinheiro, em acabando a venda. Quando lhes dá para ser formosas, nada há mais elegante que essas raparigas de olhos grandes e límpidos, esbeltas, donairosas, parecendo figuras tiradas de mármore, andando descuidosas de quem olha para elas, das galanterias com que as requestam, dos pedidos que lhes fazem…” in “Lisboa na Rua” por Júlio César Machado, desenho de Manoel Macedo, 1874



Almada Negreiros, Gare Marítima de Alcântara