domingo, 6 de fevereiro de 2011

António Pedro




António Pedro da Costa nasceu em 1909, em Cabo Verde. Veio para Lisboa estudar Direito e Letras, tendo vivido depois em vários países. Viveu os últinos anos da sua vida em Moledo do Minho, onde morreu em 1966.
Esteve ligado ao teatro, tendo sido director, encenador e professor de teatro no Porto. A sua acção encontra-se ligada a todos os movimentos artísticos de vanguarda e foi um dos principais animadores e renovadores do nosso teatro.
Foi também pintor e escritor, pertenceu ao  Movimento Surrealista de Londres e foi à sua volta que se formou o primeiro grupo deste movimento, em Portugal.
Quero dar a conhecer aqui a sua faceta de escritor, ou melhor, a de poeta. A sua poesia vai evoluindo de uma lírica simplicidade para um barroquismo cheio de gosto pelo concreto, onde os temas do Minho raiano e marítimo e o surrealismo se foram cruzando cada vez mais.
Escolhi, assim, o poema intitulado

 Maresia

Neste mar à minha frente
O sol repoisa e os nossos olhos dormem...

-Caem saudades mortas como chuva miúda,
Ou sobem, trémulas, como o vapor das algas,
Ou ficam, extáticas como um bafo de areia,
Calmas, sobre a paisagem,
Como um véu de cambraia deixado...

Não sei se é o calor das algas,
Se é o bafo de areia que baila,
Ou se é a chuva miúda que cai neste dia de sol
Como um véu de cambraia deixado,

Sei que me lembram os signos do zodíaco
Em boa caligrafia,
Uns signos como nem sequer eu tinha imaginado!...

E este calor que dimana da terra e nos confunde com ela,
Nos aquece as pernas de encontro à areia, numa vida exterior

Com mais sangue que a nossa e, sobretudo, cheia
Duma inconsciência que se não parece com nada,
Esta respiração pausada como as ondas, de trás para diante
Fazendo, lentas, e desfazendo
A mesma curva humaníssima e sensível,
Faz-me escrever, devagar, e com letra de menino pequeno
Sobre o chão acamado, esta palavra
                                                              AMOR
                                                         (in Aventura, nº3)


segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

«Livro» de José Luis Peixoto



Pode-se afirmar que José Luis Pexoto faz parte da «novíssima geração de Abril», já que nasceu em 1974, em Galveias, Ponte de Sor. Nascido e criado em tempos de gritos de liberdade, de novas realidades nunca vistas, de avanço e progresso, de prosperidade... enfim, tudo tão diferente do que foi a nossa infância e juventude, separada  apenas por vinte anos (fiz vinte anos em 1974). Pena é que tudo isto tenha acabado quando estes jovens alcançam a maioridade e têm apenas 36 ou 37 anos. Foi uma felicidade efémera...
Pode-se afirmar que este é um caso de sucesso, um bom «fruto da revolução de Abril», já que obteve imensos prémios e granjeou um sucesso invejável.
Li este livro chamado estranhamente «Livro» porque aborda o tema da emigração dos portugueses para França, nos anos da miséria salazarista, tema bastante actual, aliás, neste momento de crise.
Posso dizer que gostei da sua escrita e da forma como narra a estória, de uma forma geral, não aderindo, no entanto, à tendência do uso do palavrão e de referências aos instintos mais sórdidos dos humanos, sintomático nestes jovens autores. Penso que isso se deve a uma sua necessidade congénita de chamar a atenção para esses aspectos, de se servir de forma aleatória dos mais baixos instintos humanos, que não nos caracteriza a nós, mais velhos e fruto de outra educação.
Cá por mim, todos eles podiam muito bem passar sem este tipo de conteúdos ou de linguagem, o público ia lê-los na mesma, não têm necessidade nenhuma de usar tanto palavrão (não é muito no caso deste autor, comparado com outros), que podem agradar a algum tipo de público, mas que «perturba» um pouco muita gente dos 50 para cima, que afinal ainda é uma parte importante dos seus leitores, visto que ainda possuem algum poder de compra e alguns hábitos de leitura.
Penso que é uma má aposta, a médio e longo prazo, destes novos escritores, mas isto é a minha opinião. E quem sou eu?
Que tal fazer-se um estudo de mercado, a várias faixas etárias? Gosta de ouvir ou ler palavrões a eito em livros ou outras formas de expressão artística? Ou já lhe chegam os que tem de ouvir na vida real?

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Saul Dias




Pseudónimo de Júlio Maria dos Reis Pereira, irmão do poeta José Régio, Saúl Dias nasceu em Vila do Conde em 1902. Formou-se em Engenharia Civil, frequentou a Escola de Belas-Artes do Porto, realizando em Portugal várias exposições individuais   de pintura e desenho. Colaborou artisticamente em diversas revistas e jornais, nomeadamente a Presença,a cujo grupo pertenceu como poeta e como artista plástico.
A sua poesia caracteriza-se por uma grande delicadeza e pureza de expressão.
Achei muito curioso este poema, por me identificar com ele: também eu tive que eliminar da minha vida, progressivamente, o café, o fumo, e muitas outras coisas. Mas há sempre muito que fica ainda para viver, para além destes pequenos deleites da vida.

Álcool, Fumo e Café

Não mais o álcool,
não mais o fumo,
de azulado rumo,
nem o café.
Resta-me a fé
num áureo aprumo.
Não me consumo.
Sei como é.

Os nervos cansam
e vão partir-se.
A voz de Circe
ouço-a ainda...
E, mais mais linda,
ainda me chama
e, embora lama,
quero-lhe ainda.

Mas quero quietos
os meus sentidos,
comprometidos
em ascensões.
As sensações
hei-de chamá-las,
purificá-las
com comunhões.

Resto sedento,
desalentado...
Quem a meu lado
no funeral?
Negro portal
hei-de quebrá-lo.
Cantar de galo
sobre o coval.
..................

De qualquer forma
sigo o meu rumo,
num áureo aprumo,
cheio de fé.
Sem o café,
sem o tabaco, cortar o opaco
sei com é.

                             in «Tanto»

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

«O Principezinho» de Antoine de Saint-Exupéry



Em tempos tão conturbados e de tanto egocentrismo como aqueles em que vivemos, vale a pena relembrar esta obra magnífica e o seu autor, Antoine de Saint-Exupéry, que, não obstante ser filho de condes, serviu o seu país durante a Segunda Guerra Mundial, acabando por morrer num desastre de aviação numa missão de reconhecimento, aos 44 anos.
Apaixonado desde a infância pela mecânica e pelos aviões, este escritor francês começa a sua carreira de piloto em 1926, que acaba por lhe ser fatal, morrendo em 31 de Julho de 1944. O seu avião só foi encontrado cerca de 50 anos depois.
Ficou mundialmente conhecido como autor do livro «O Principezinho», para mim, uma obra-prima e um dos livros mais emocionantes e verdadeiros de sempre. O mais impressionante é o facto de Saint-Exupéry o ter escrito em 1943, em plena Guerra Mundial, em tempos de enormes atrocidades, enquanto estava exilado nos EUA.


Como foi possível a este escritor, no meio duma Guerra Mundial, manter o seu espírito criativo e imaginar a personagem sensível e maravilhosa do Principezinho ? Ou talvez fosse por isso mesmo que o inventou, pelo facto do mundo e dos homens estarem tão carenciados e privados de beleza e de amor.
Todos os capítulos são maravilhosos, mas escolhi um excerto do capítulo XVI, por falar da Terra:

O sétimo planeta foi, portanto, a Terra.
A Terra não é um planeta qualquer. Tem cento e onze reis (contando, claro está, com os reis pretos), sete mil geógrafos, novecentos mil homens de negócios, sete milhões e meio de bêbedos, trezentos e onze milhões de vaidosos, ou seja, aproximadamnte, dois biliões de pessoas grandes.

E podíamos continuar por aí fora a lista de Saint-Exupéry, mas é melhor ficarmos assim.

«Se vieres, por exemplo, às quatro da tarde, a partir das três começarei a sentir-me feliz.»  (Principezinho)





quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

José Saramago




José Saramago, Prémio Nobel 1998
 
 
Visitei no dia 18 de Junho o edifício da Fundação José Saramago, instalada na famosa Casa dos Bicos, no Campo das Cebolas. Precisamente no dia em que passaram 4 anos após a sua morte.


Só agora! Mas mais vale tarde do que nunca!
O dia estava cheio de sol, o autocarro ondulava e saltitava que nem um barco no mar alto pelo meio dos inúmeros obstáculos do caminho, mas lá chegámos, a minha amiga e eu.
Valeu a pena, no entanto. O edifício é muito bonito e ricamente decorado, com os seus mármores, madeiras ricas, vitrais... Também gostei das exposições e vídeos.

Aproveito para colocar aqui este power-point que me enviaram e de que gostei muito.
Palavras com sentido, cada vez com mais sentido!xa.yimg.com/kq/groups/13772410/1155245910/name/Saramago.pps


sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

«Perto do Coração Selvagem» de Clarice Lispector






Primeiro livro de Clarice Lispector, escrito aos 19 anos apenas, tornou-se uma obra decisiva nos novos caminhos da ficção brasileira  e elevou a sua autora ao primeiro plano das letras do Brasil, seu país de acolhimento.
Na realidade, sendo de origem judaica e tendo nascido na Ucrânia em 1920 , quando a sua família foi perseguida durante a Guerra Civil Russa de 1918-1921, antes da viagem de emigração para o Brasil, aí chegou com apenas 2 meses de idade. Por iniciativa de seu pai, todos mudaram de nome, à excepção da irmã Tânia, passando Haia (seu nome verdadeiro) a chamar-se Clarice..
 Clarice Lispector começou a escrever logo que aprendeu a ler, na cidade do Recife, onde passou parte da infância. Falava vários idiomas, entre eles o francês e inglês. Cresceu ouvindo em casa o idioma materno, o iídiche.
Revelando nesta obra uma penetrante capacidade de análise psicológica, grande domínio da linguagem,  força e  originalidade expressivas, Clarice Lispector afirma desde logo o seu talento para a escrita.
Faleceu com cancro no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes de seu 57° aniversário.
Sendo ela conhecedora e falante de várias línguas, escreveu sempre em língua portuguesa, a sua língua do coração, como ela afirmava.

«Amo esta língua. Não é uma língua fácil.É um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve querendo roubar às coisas e pessoas a sua primeira camada superficial. É uma língua que por vezes reage contra um pensamento mais complexo.»
















domingo, 2 de janeiro de 2011

Ano Velho Ano novo

Para todos que vão seguindo este blogue, que não deixem que se apaguem o fogo da vida e as luzes que viram brilhar nos céus no início do ano novo.
Muita luz, muita paz e muitas leituras para 2011!