segunda-feira, 29 de outubro de 2012

«Mar de Sesimbra» de Isabel del Toro Gomes

















Mar de Sesimbra
 
Relembro o mar de Sesimbra
Aquele mar  que chama por mim
E é sempre da cor do céu



Tudo se confunde

Na linha do horizonte



Azul é o céu
Azul é o mar


Ouço o seu apelo
De dia suave e calmo
De noite rouco e turbulento
  
E respondo então assim
Mar grande e profundo
Estou aqui!


                                      

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

José Régio

José Régio (pseudónimo de José Maria dos Reis Pereira) nasceu em Vila do Conde em 1901 e viria a falecer na sua terra natal em 1969, embora tenha vivido 34 anos em Portalegre, pois aí foi colocado como professor em 1928, no liceu Mouzinho da Silveira.



















Foi viver para uma pensão e, por necessidade de espaço, foi ocupando todos os quartos, tornando-se o único hóspede. É nesse local que se encontra hoje a Casa-Museu José Régio. Em 1965 vende a sua coleção de antiguidades e de arte sacra (de que se destacam os seus  Cristos) à Câmara Municipal de Portalegre, com a condição desta adquirir a casa e transformá-la em Museu, o que só veio a acontecer em 1971.


 José Régio foi um homem de todas as artes, versátil, revelando o seu talento  em quase todos os géneros literários e artísticos: poesia, teatro, romance, ensaio, crónica, jornalismo, desenhador, pintor, etc.
Foi talvez como poeta que ficou mais conhecido do grande público. É na poesia que vai desenvolver  o seu grande tema: o confronto consigo próprio e a procura da sua identidade, chegando mesmo a ser atacado de umbiguismo (de um verso célebre das Encruzilhadas).


 Poeta sou! cumpro o meu Fado, estranho
Como o dum santo ou um louco:
Só posso dar de mais ou muito pouco,
Que é tudo quanto tenho.


                              José Régio, in Filho da Homem


Deu-nos de mais, de certeza!
Merece continuar a ser lido e lembrado.
E revisitado no seu Museu em Portalegre.  










sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Manuel António Pina (1943-2012)

























Manuel António Pina já não está entre nós, infelizmente.
Ausentou-se deste mundo por este se ter tornado demasiado mesquinho e estreito para ele, que manteve sempre a verticalidade dos homens bons. 
Porque nunca se deixou envaidecer com os prémios que foi recebendo, com o Prémio Camões, em 2011, dizendo: «Já que não posso mudar o mundo, que o mundo não me mude a mim»
Alguém disse que ele soube conservar a ingenuidade e a pureza de criança dentro dele, embora acompanhada da sapiência do adulto.





Foi como autor de literatura para crianças que o conheci melhor e o dei a conhecer aos meninos e meninas que fui encontrando pelo caminho. Isso foi bom mas é muito pouco. Muito mais há a conhecer deste escritor/jornalista de crónicas magníficas, deste poeta que gostava dos gatos. 

Deste escritor que em criança queria ser detetive, santo ou salazar (ele pensava que era uma profissão e, se calhar, tinha razâo).
Mais um poeta que morreu e nos deixou mais sozinhos.


Num PAÍS DAS PESSOAS DE PERNAS PARA O AR.



quinta-feira, 18 de outubro de 2012

São João de Deus


 Um dia destes ouvi falar, por acaso, num programa de História na televisão, do rapaz nascido em Montemor-o-Novo, em 1495, muito pobre, chamado João Cidade. Partiu para Espanha com apenas 8 anos de idade, para ser pastor. Por lá cresceu e tornou-se num homem «com maus hábitos», que passava a vida bêbado, sem eira nem beira. Até que um dia ouviu a voz de Deus, que o levou para o caminho da virtude. Dedicou então o resto da sua vida a tratar dos pobres e dos doentes, fundando um hospital em Granada, em 1539. Aí faleceu em 1550.
 Mais tarde foi santificado, passando a ser chamado  São João de Deus.


No dia a seguir ao programa, encontrei, também por acaso, a estátua de São João de Deus, num pequeno jardim perto da estação de comboios de Areeiro-Alvalade. É ele que dá o nome à freguesia São João de Deus.
Acaso ou coincidência? Ou fui eu ter com ele ou ele ter comigo, como ele é santo é mais provável a segunda hipótese.
Aqui ficam as imagens. Como se vê, a placa aguarda restauração, talvez alguém possa fazer mais um milagre e repor as letras que faltam!



domingo, 14 de outubro de 2012

«Ocaso no Mar» de Cruz e Sousa


  
João da Cruz e Sousa (1861-1898) foi um poeta brasileiro que teve uma vida assaz singular. 
Filho de um escravo e de uma lavadeira, ambos negros, foi educado em casa do marechal Guilherme Xavier de Sousa, como filho adotivo.
Fugindo assim à triste sorte que o esperava, recebeu uma educação esmerada com os melhores professores e, desde muito jovem, começou a sua atividade de escrita, com publicações em jornais. Fundou mesmo com outros escritores um pequeno jornal literário, Colombo.
Entretanto morre o poeta Castro Alves, poeta que lutou pela libertação dos escravos no Brasil e que muito influenciou a poesia de Cruz e Sousa.  Ele próprio defende a causa abolicionista, fazendo conferências em várias cidades.
Os seus dois livros mais importantes são Missal (poemas em prosa) e Broquéis, ambos editados em 1893 pelo editor Fernando Magalhães, que abrira pouco antes a sua editora, a Magalhães e Companhia - Editores. Apostar num autor negro cinco anos após a Abolição era um apelo irresistível e arriscado, que não foi recebido pela crítica da época com o esperado sucesso. 
A hipótese de haver um grande artista negro no Brasil não parecia possível. Entretanto, aquelas obras consolidaram o Simbolismo no Brasil, de que Cruz e Sousa foi precursor. Foi mais tarde alcunhado de Dante Negro e Cisne Negro, o que revela a admiração que conquistou do público em geral.
A sua vida foi recheada de desventuras e infelizmente acabou por morrer de tuberculose, com apenas 37 anos, numa situação económica deplorável. 
Mais um poeta desditoso a juntar a tantos outros, ao longo da história  da Literatura. Que não sejam ao menos esquecidos!
Gostei sobretudo dos poemas em que se revela o seu fascínio pelo mar. Este é um deles:




Ocaso no Mar


Num fulgor d' ouro velho o sol tranquilamente desce para o ocaso, no limite extremo do mar, d' águas calmas, serenas, dum espesso verde pesado, glauco, num tom de bronze.
No céu, de um desmaiado azul, ainda claro, há uma doce suavidade astral e religiosa.
Às derradeiras cintilações doiradas do nobre Astro do dia, os navios, com o maravilhoso aspecto das mastreações, na quietação das ondas, parecem estar em êxtase na tarde.
 Num esmalte de gravura, os mastros, com as vergas altas, lembrando, na distância, esguios caracteres de música, pautam o fundo do horizonte límpido.
 
Os navios, assim armados, com a mastreação, as vergas dispostas por essa forma, estão como que a fazer-se de vela, prontos a arrancar do porto.
Um ritmo indefinível, como a errante, etereal expressão das forças originais e virgens, inefavelmente desce, na tarde que finda, por entre a nitidez já indecisa dos mastros. 
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Surgindo através de tufos escuros de folhagem, além, nos cimos montanhosos, uma lua amarela, de face chata de chim, verte um óleo luminoso e dormente em toda a amplidão da paisagem.


                       Ocaso no Mar in Missal, de Cruz e Sousa

terça-feira, 9 de outubro de 2012

«Keep the Oceans clean», no Oceanário de Lisboa

 
 
A exposição que se encontra no átrio do Oceanário de Lisboa é de entrada livre e é importante que todos a vejam. 




Não é que seja grande novidade, já todos sabemos que o aumento do consumo no mundo atual de plásticos, garrafas, papel e toda a espécie de lixo tem um efeito devastador no nosso Planeta.


Mas quando somos confrontados com as imagens, tem sempre um maior impacto. Como por exemplo a dos golfinhos que eram treinados para carregar bombas e as levarem no seu corpo, durante a Segunda Guerra Mundial.
 
Quase todas as esculturas e instalações que estão ali expostas têm a particulariedade de serem feitas com lixo e materiais apanhados nos mares, dando-lhes um significado ainda maior!


 Quanto a números e estatísticas, existem vários cartazes que nos lembram a triste realidade dos nossos mares e do planeta em geral.
Esperemos que os governantes do mundo inteiro façam alguma coisa, de forma rápida e urgente, e que todos nós mudemos alguns dos nossos hábitos poluidores.



 

domingo, 7 de outubro de 2012

Mais Homens-Estátuas

Em Salvador da Bahia, Janeiro 2012, em pleno Pelourinho, dei de caras com um Jesus Cristo, sem cruz, com as marcas das chagas e, pormenor interessante, uma cabaça para se depositar as moedas. No meio de tantas igrejas e de tantos santos, tinha a sua lógica!
 Mais adiante, também no Pelourinho, estava um belo cowboy prateado, bem disposto e folgazão, que apitava com uma espécie de assobio que tinha na boca, cada vez que caía uma moedinha.
 Aqui mesmo na Baixa lisboeta, no dia 26 de Dezembro de 2009, um Homem de Barro, com um grande coração, sorria bonacheirão aos passantes, lembrando-lhes que não passávamos de pó da terra, mesmo em época natalícia. 
 
Primavera, 2015.
O calor tem sido pouco, o sol escasso. Daí, a bela moça leiteira ter montado a banca num local sem arvoredo, perto do Rossio. E o leite escorria escorria, fazendo as admirações de todos.
Tudo corria normalmente, quando, repentinamente, o sol começou a brilhar e a escaldar. A moça leiteira já suava por todos os poros. Teve de se mexer, de estender os músculos, pois o sol não se compadecia.
Os turistas, esses, emergiram que nem caracóis por tudo quanto era sítio, deslumbrados com aquele calor tropical tão repentino.
Acho que ninguém deve ter reparado que a mulher estátua se mexeu, mas eu vi muito bem, ao longe, o seu desespero, a abanar o corpo e os braços.
Malditas nuvens, porque se sumiram assim sem pré-aviso??!!
Depois, não sei o que aconteceu, também eu tive de ir embora.

 
 

sábado, 6 de outubro de 2012

Encontro com Mozart

Encontrei hoje Mozart, quando me passeava na Rua Augusta.
Ou melhor, uma estátua de Mozart.
 
Claro que não há lá nenhuma estátua de Mozart, toda a gente sabe.
Era um Homem-Estátua, mas tão perfeito, com uma encenação tão sofisticada, que podia enganar qualquer um: tinha anjinhos, um pombo em cima da cabeça e outro que abria e fechava as asas, cagadelas de pássaros, enfim, tudo! 
Exigências da profissão e da modernidade. O público é cada vez mais exigente, já não se contenta com qualquer estátua.
 Admiro o trabalho destes homens e mulheres (também as há), que tenho visto por todos os países por onde tenho passado. Não é nada fácil fazer o que eles fazem, e viver desta arte ainda deve ser mais difícil!
O cartaz deste Homem-Estátua, escrito em várias línguas, dizia o seguinte:

Se um homem faz da vida um uso artístico, o cérebro passa a ser o seu coração.

Assim devia de ser em todas as formas de arte!