terça-feira, 31 de julho de 2012

«Alegria Breve» de Vergílio Ferreira




Da minha língua vê-se o mar. 


Beirão, o universo de Vergílio Ferreira, como o de Aquilino, é rude e voluntaristicamente repassado de emoção sufocada, mortos sem sepultura na alma, infância apenas desaparecida do outro lado do mesmo muro. «A ternura é o mais difícil e enternecemo-nos tanto. Que é que me comove? Como uma árvore, às vezes penso, o homem pode subir alto, mas as raízes não sobem. Estão na terra, para sempre, junto da infância e dos mortos».

                                Eduardo Lourenço, in Prefácio de Alegria Breve


Expressão tão simples e bela da verdade da vida!
O nosso corpo vai crescendo em direção ao céu, mas o coração fica para sempre junto às nossas raízes, à nossa origem, ao início do mundo que é a infância. E os mortos nunca nos largam, são sempre um começar de novo.




terça-feira, 24 de julho de 2012

Helena Cidade Moura



A mulher que foi responsável pela maior campanha de alfabetização organizada em Portugal após o 25 de Abril, Helena Cidade Moura, faleceu no dia 20 de Julho, aos 88 anos.
Deputada na Assembleia da República na I, II e III legislaturas, Helena Cidade Moura coordenou mais de 400 cursos de alfabetização.
Isso é um facto que não deve ser esquecido. Desapareceu uma mulher de grande mérito das nossas letras e da nossa cultura, a quem muito devemos. 
É graças a ela, aliás, que podemos ler as obras de Eça de Queiroz, pois a fixação do texto, as notas e os prefácios são obra sua.


segunda-feira, 23 de julho de 2012

Veleiros em Lisboa



         Há mar e mar há ir e voltar.

                                                                              Alexandre O' Neill



Por onde andarão os belos veleiros que estiveram em Lisboa, no passado fim de semana? Que mares andarão a navegar agora?

Como dizia Alexandre O' Neill, esperemos que voltem um dia, para os admirarmos novamente,

 ou talvez para nos fazerem crer que o mar poderia ajudar na resolução dos nossos problemas.
Se fôssemos o tal povo organizado ...


 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

«Dias comuns II - A Idade do Malogro» de José Cardosos Pires

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José Cardoso Pires escrevia diários todos os anos e todos os dias! Um verdadeiro diarista é assim, capaz de me meter inveja!
Depois relia-os, passados anos, retirava alguns excertos que queria preservar e...queimava-os, atitude também corajosa de que muitos não se poderão vangloriar!
Os dia Comuns estão recheados de histórias e episódios da vida real cómicos, embora transpirando a atmofesra sórdida e mafienta dos tempos inglórios do fascismo e da censura aos escritores e artistas em geral.
Esta é uma delas:


Soube hoje que o Salazar escreveu pessoalmente ao embaixador de Portugal em França a pedir-lhe que organizasse uma homenagem, ou coisa parecida, à pintora Vieira da Silva (que é agora cidadã francesa em virtude do marido ter adquirido essa nacionalidade, depois de lhe negarem a cidadania portuguesa por ser judeu e apátrida).
O embaixador, claro, rata sabida, mandou consultá-la por portas travessas.
Mas a grande pintora europeia limitou-se a responder.
-Salazar? Quem é? Não conheço. Não é das minhas relações.




 

domingo, 15 de julho de 2012

«Ler um livro...»


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 Ler um livro é pedir olhos emprestados para ver o mundo.

                                                    José Gomes Ferreira, in Dias Comuns II
                                                                                                             Diário

sábado, 14 de julho de 2012

«Memória - I », poema XVIII


José Gomes Ferreira nasceu no Porto a 9 de Junho de 1900. Licenciado em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa, exerceu o cargo de cônsul de Portugal na Noruega, de onde voltou em 1930. Regressado a Portugal dedicou-se ao jornalismo e à escrita. Poeta e ficcionista, é um dos grandes nomes das letras portuguesas. Faleceu em Lisboa, em 1985.



XVIII 
(Experiência)
Depois vieste tu
(tu quem?)
e meteste nos sonhos, no mel, nos cravos
as pedras que piso...
E apedrejaste a morte
com o teu sorriso.
  
                               José Gomes Ferreira, in Memória - I



sexta-feira, 13 de julho de 2012

«Até o silêncio tem um fim» de Ingrid Betancourt

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Ingrid Betancourt nasceu em Bogotá, Colômbia, em 1961. Viveu e estudou em França, onde se formou em Ciências Políticas. Em 1989, regressou à Colômbia para se dedicar à política. Assessora dos ministros das Finanças e do Comércio Externo, entre 1990 e 1994, foi eleita deputada em 1994, criou o partido Oxigeno Verde em 1997 e foi eleita senadora em 1998. Em 2002, enquanto era candidata presidencial da Colômbia, foi sequestrada pelas FARC. Depois de seis anos e meio de cativeiro, em 2008, o exército colombiano resgatou-a.
http://top-people.starmedia.com/tmp/swotti/cacheAW5NCMLKIGJLDGFUY291CNQ=UGVVCGXLLVBLB3BSZQ==/imgIngrid%20Betancourt1.jpg
Este é um relato dramático e brutal do que uma mulher refém passou numa eternidade de tempo, desde ser espancada, acorrentada pelo pescoço, passar fome, como se vê pela sua extrema magreza, em cativeiro. Depois de libertada, ainda teve coragem para escrever todas as suas memórias desses tempos de terror. É um exemplo que nos inspira para os tempos difíceis que vivemos, um verdadeiro manual de sobrevivência.

Era maior do que eles, mantinha a cabeça direita e rígida e todo o meu corpo estava tenso pela ira. Sabia que nada podia fazer contra eles, mas que eles não estavam seguros disso. Sentia que eles tinham mais medo do que eu. No entanto, tinham a seu favor o ódio e a pressão dos outros. Bastava um gesto para que fosse rompido esse equilíbrio no qual eu ainda tinha vantagem.
 Ouvi o homem da corrente dirigir-se a mim. Repetia o meu nome com uma familiaridade insultuosa. Decidira que eles não me fariam mal. O que quer que pudesse acontecer, não teriam acesso à essência de mim. Sentia que se conseguisse manter-me inacessível evitaria o pior. 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

«Crepúsculo» de Isabel del Toro Gomes















Crepúsculo


Cada dia tem um fim
Um pôr-do-sol no horizonte
Depois...o recomeço.

Dizemos «Até amanhã»
Sem saber se haverá um amanhã
Ou se será o esquecimento.

Despede-se o dia, esvai-se a luz
Num céu rubro, em chamas
Até o violeta se esfumar lentamente.





Aí surge o astro branco que conduz
Os poetas, os deserdados
Os sofredores enamorados.

Sobe altivo, furtivamente
Das negras águas do mar
onde o sol se pôs, candente.

E de novo a terra se ilumina
E tudo recomeça...
Ou se esquece, enfim.