domingo, 18 de dezembro de 2011

«Natal» de Álvaro Feijó

 Presépio montado no Parque de Campismo de Almornos.

 Num momento de dificuldades como o que vivemos, faz todo o sentido recordar este poema de Álvaro Feijó. 
Nem todos os meninos nascem num berço de ouro, muitos não têm mesmo berço nenhum. 
A história de Jesus é a história de todas as crianças do mundo que não foram bafejadas pela sorte de possuirem bens materiais. Mas muitas das vezes, são bem mais ricas do que as outras, pois não é o dinheiro que lhes dá felicidade,  antes o carinho e o amor dos que o rodeiam e os ajudam a crescer.
Aqui fica o testemunho do meu afeto e respeito por todas elas, através das palavras e da poesia de Álvaro Feijó.

Natal
Nasceu.
Foi numa cama de folhelho
entre lençóis de estopa suja
num pardieiro velho.
Trinta horas depois a mãe pegou na enxada
e foi roçar nas bordas dos caminhos
manadas de ervas
para a ovelha triste.
E a criança ficou no pardieiro
só com o fumo negro das paredes
e o crepitar do fogo,
enroscada num cesto vindimeiro,
que não havia berço
naquela casa.
E ninguém conta a história do menino
que não teve
nem magos a adorá-lo,
nem vacas a aquecê-lo,
mas que há-de ter
muitos Reis da Judeia a persegui-lo;
que não terá coroas de espinhos
mas coroa de baionetas
postas até ao fundo
do seu corpo.
Ninguém há-de contar a história do menino.
Ninguém lhe vai chamar o Salvador do Mundo.

                                 Álvaro Feijó, in Diário de Bordo

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