terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Bom Natal a todos

Para todos os meus leitores e amigos, faço votos que tenham um Natal Feliz, com a prenda principal que é a Paz e amor. E a Poesia também!




Chove. É dia de Natal.


Lá para o Norte é melhor:

Há a neve que faz mal

E o frio que ainda é pior.



E toda a gente é contente

Porque é dia de o ficar.

Chove no Natal presente.

Antes isso que nevar.



Pois apesar de ser esse

O Natal da convenção,

Quando o corpo me arrefece

Tenho frio e Natal não.



Deixo sentir a quem quadra

E o Natal a quem o fez,

Pois se vai mais uma quadra

Sinto mais Natal nos pés.



Não quero ser dos ingratos

Mas, com este obscuro céu,

Puseram-me nos sapatos

Só o que a chuva me deu



Fernando Pessoa



quarta-feira, 24 de novembro de 2010

«Elogio da Loucura» de Erasmo



Nestes tempos e lugares em que todos parecem estar loucos, ou fazer de nós loucos, é talvez pertinente relembrar esta obra escrita por Erasmo de Roterdão.
«O mundo é um palco e a vida um jogo de som e de fúria, representado por um louco» - esta metáfora é-nos cada vez mais muito familiar, ressoa na literatura europeia e surge com intensidade na obra de Erasmo.
No turbilhão de revoltas, guerras e contendas religiosas dos fins do século XV, este monge e reformador sensato e moderado, resolve fazer, em 1509, o elogio da loucura, da estultícia e da ignorância. Claro que ele o faz de forma irónica, num jogo de duplicidade genial, como o mágico que nos mostra a realidade sob a capa do irreal, o sério escondico sob o jocoso.
Se eu tivesse lido este livro há uns meses atrás, de certeza que tinha feito outras opções muito mais vantajosas. Ou talvez não!
Aqui ficam alguns excertos, para vos aguçar o apetite:
Os mortais têm a meu respeito opiniões díspares, e não ignoro o mal que se ouve dizer da loucura, mesmo entre os loucos. No entanto, sou eu, e eu só, quem alegra os deuses e os homens.
Sou sempre igual a mim própria e nunca uso de disfarce, como os que pretendem passar por sábios e se passeiam como macacos vestidos de púrpura ou asnos cobettos com uma pele de leão.
Instante a instante, a vida seria triste, aborrecida, enfadonha,insípida, insuportável, se a ela não se misturasse o prazer, isto é, a Loucura. Poderia aqui invocar o testemunho de Sófocles, poeta jamais suficientemente louvado, que diz a meu respeito: «Quanto menos prudência e sabedoria maior a felicidade».

Para quê  prudência e  sabedoria, realmente? Atiremo-nos de cabeça para a Loucura e sejamos todos felizes!

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

António Souto, «O Tempo das Palavras»


António José Souto Marques nasceu em Angeja, Albergaria-a-Velha em 1961, é Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas e pós-graduado em Teoria e Criação Literária. Entre outras funções, foi professor em França, leccionando neste momento em Lisboa. É autor de Arcanas Carícias, Na Lavra do Dizer e Caprichos, colaborou em várias publicações e publicou em Setembro deste ano O Tempo das Palavras, livro de poemas, em parceria com outro poeta, Armindo S.
A poesia de António Souto reflecte as suas vivências, as suas emoções, os seus pensamentos através de palavras vivas, que têm o poder de nos atrair e de nos contagiar. É uma poesia que nos transmite de uma forma simples e verdadeira os mistérios da vida, a magia do quotidiano, como o poema que vou transcrever aqui, dedicado às suas filhas, de que gostei especialmente:

                                                    
Para a Mariana e Margarida

Nasceu o sol de madrugada só para mim
ia alta a noite e o vento cirandava
grávido de dor e cor em frenesim
que o desejo da espera revelava

pouco a pouco o contorno se acentua
aconchego de capricho que se tem
resplendor de beleza inocente e nua
com rosto e nome agora que convém

saber-vos assim florindo ao ritmo dos dias
cercadas de mimos, requebros, fantasias
cuidando que o mundo é todo vosso

e nestes versos celebrar-vos a vida
a sorte oculta que sabeis comedida
no vingar de um sonho agora nosso.

                                       António Souto, in O Tempo das Palavras



                                                             

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Outubro - Isabel del toro Gomes


(Finalmente, um poema meu. Ganhei coragem!)



Outubro



É Outubro ainda...

Mês das despedidas dos amores de verão


Outubro ameno, cheio deste sol


Que tão meigamente nos aquece, sem agressão


Mais um dia feliz


Em que me sinto feliz aqui sentada


Na nossa sala, sem frio, sem calor


No nosso sofá que tão comodamente


Me ampara o corpo e a alma


Quase adormecidos, sem medo


Sem sofrimento, sem depressão


Mais um dia de Outono amarelecido


Em que me deixo estar aqui quase imóvel


Feliz languidez e lassidão


Em paz à espera de ti meu amor


Do mês de Outubro.




















quarta-feira, 20 de outubro de 2010

D. Carlos I e os «Vencidos da Vida» de F.A. Oliveira Martins

                                                           Estátua de D. Carlos I, em frente à Baía de Cascais

Enquanto o país se entretinha a comemorar o centenário da Implantação da República,   tentando branquear a crise e a penúria com muita música e festanças, os nossos dilectos governantes preparavam pela calada da noite o «prato de fome» que se iria seguir à festa. Enquanto isso, eu lia um livrinho de folhas amarelas, editado pela Parceria António Maria Pereira, de 1942, intitulado D. Carlos I e os «Vencidos da Vida», de F.A. Oliveira Martins, que encontrei por acaso numa prateleira e que custou 10 escudos.
Fiquei logo curiosa por lê-lo, pois pouco ou nada sabia nem do rei D. Carlos I, nem dos «Vencidos». Aprendi um manancial de coisas interessantes, entre as quais que Portugal se encontrava à época do rei-mártir exactamente na mesma situação da que se encontra agora: com o tesouro saqueado, o Estado em bancarrota e a precisar de um «endireita». E também pelas mesmas razões, salvas as devidas distâncias: « A política pessoal de D.Carlos I fazia e a política partidária desfazia» (pág. 107). Só que agora, não se sabe quem faz e quem desfaz, nem o quê...

São tantas as semelhanças entre estas duas épocas históricas, a de D. Carlos I e a nossa (a de D. Sócrates...ou a de D. Cavaco???) que vale a pena ler esta obra. É o nosso retrato, quase, só os nomes são diferentes.
 Alexandre Herculano escrevia : «Dá vontade de morrer». Que diria ele agora?



domingo, 19 de setembro de 2010

Jorge Barbosa

Jorge Barbosa, poeta cabo-verdiano (1902-1971), quase desconhecido entre nós, deu a conhecer a tragédia humana das populações de Cabo-Verde nos seus poemas. Escolhi este poema por ser uma descrição perfeita, cheia de realismo, duma cena da vida quotidiana.

Ilha
Quando o barco alemão vem à ilha carregar sal
há um sobressalto íntimo de contentamento
na gente que fica a ver de terra.

À varanda da antiga casa do largo
olhos curiosos em direcção ao mar
atravessam as lentes baças
de velho binóculo do tempo dos piratas.


Toma certo ar garboso e oficial
com a bandeira nacional à popa
o escaler a remos
ao partir apressado ao vapor
com as autoridades todas do porto
e o empregado da firma carregadora
que leva uma grande pasta sob o braço...

Compram-se a bordo novidades
ouvem-se notícias de longe...
bebe-se
cerveja gelada...

O barco parte depois
e a Povoação resignada
retoma a monotonia habitual...

...à noitinha
à hora tagarela de em seguida ao jantar
os homens reúnem-se na rua principal
comentando as ocorrências do dia.

Vem então à baila aquela passageira de boca pintada
que seguia para o Congo Belga...
E da evocação da mulher estrangeira
ficou um sonho parado
em cada um...
                                (in Ambiente)



segunda-feira, 13 de setembro de 2010

José de Almada Negreiros

                                                                  auto-retrato
José de Almada Negreiros, nasceu em São Tomé em 1893 e faleceu em Lisboa em 1970.

retrato de Fernando Pessoa , por Almada Negreiros, 1954

Universalmente conhecido pelo retrato de Fernando Pessoa, como pintor e artista plástico, Almada Negreiros também foi poeta, romancista, ensaísta, crítico de arte, conferencista, dramaturgo, enfim, uma das mais notáveis figuras da cultura portuguesa. Um génio, na opinião de muitos.

                                                       Vitral da Igreja de Fátima, Lisboa

Na Igreja de Nossa Senhora de Fárima, em Lisboa, obra do Arquitecto Pardal Monteiro, que foi inaugurada a 13 de Outubro de 1938, são da sua autoria o portão do Baptistério, os frescos da cúpula da ábside e os magníficos vitrais, que são a parte mais visível e conhecida dos trabalhos de Almada Negreiros nesta Igreja.


A obra mais importante da sua derradeira fase criativa foi um grande painel em pedra gravada, destinado ao átrio da sede da Fundação Calouste Gulbenkian. Trata-se de Começar (1968-1969), uma obra fascinante, de complexa e mística concepção.


                         A.Negreiros a trabalhar nos painéis da Gare Marítima de Alcântara


                                                      Gare Marítima de Alcântara


 gravuras incisas na entrada da Faculdade de Letras de Lisboa


A sua poesia não ocupa, no conhecimento do público, o lugar a que tem direito. Aqui fica, então, o poema Rondel do Alentejo, de Almada Negreiros.
                                    Almada Negreiros com a mulher e pintora, Sarah Afonso

                                  Rondel do Alentejo
Em minarete
mate
bate
leve
verde neve
minuete
de luar.

Meia-Noite
do Segredo
no penedo
duma noite
de luar.

Olhos caros
de Morgada
enfeitada
com preparos
de luar.

Rompem fogo
pandeiretas
morenitas,
bailam tetas
e bonitas,
bailam chitas
e jaquetas,
são as fitas
desafogo
de luar.

Voa o xaile
andorinha
pelo baile,
e a vida
doentinha
e a ermida
ao luar.

Laçarote
escarlate
de cocote
alegria
de Maria
la-ri-rate
em folia
de luar.

Giram pés
giram passos
girassóis
e os bonés,
e os braços
destes dois
giram laços
ao luar.

O colete
desta Virgem
endoidece
como o S
do foguete
em vertigem
de luar.

Em minarete
mate
bate
leve
verde neve
minuete de luar.
                                             in «Contemporânea»


                                              Com os filhos, na Quinta de Bicesse


terça-feira, 7 de setembro de 2010

Irene Lisboa


Mais um poema de Irene Lisboa:

                                    Jeito de escrever
Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?

Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
                                                      (excerto dum poema inédito, in «Líricas Portuguesas de Jorge de Sena)

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Irene Lisboa

Na minha tentativa de dar a conhecer poetas, uns mais outros menos conhecidos, hoje é a vez duma mulher, Irene Lisboa, que assinou várias vezes sob pseudónimos de nomes masculinos, o que é muito revelador do receio de se ser mulher num meio maioritariamente masculino. Não nos esqueçamos que a rainha D. Maria I proibiu (de novo) as mulheres de pisarem os palcos.
Irene Lisboa nasceu em 1892 e faleceu em 1958. Foi professora primária, especializou-se em  questões pedagógicas, escreveu poesia, contos e muitas outras obras, colaborou em jornais e revistas, enfim é autora duma vasta obra bastante considerada.
Escolhi um pequeno poema dela, de grande ironia e muito actual. Hoje como noutros tempos, Portugal no seu melhor:

Este mundo é um curro.
E nem um curro será.
É um beco sujo,
um velho quintal.
As vizinhas malcriadas despicam-se, espreitam-se.
Lá estão elas de mãos na ilharga:
Tira, toma, é mentira, é falso...

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Roberto de Mesquita


Roberto de Mesquita foi um poeta quase desconhecido, no seu tempo e no nosso. Por isso, o menciono aqui. Poeta acoreano, nasceu em 1871 na Ilha das Flores e aí morreu em 1923. Foi um dos poetas simbolistas dos inícios do movimento em Portugal e foi Vitorino Nemésio quem o descobriu. A sua obra foi reunida num volume intitulado Almas Cativas.

Aqui fica um poema que denota a sua clasusura de ilhéu, virado para o mar:

                                   Ar de Inverno

Aves do mar que em ronda lenta
giram no ar, à ventania,
gritam na tarde macilenta
a sua bárbara alegria.

Incha lá fora a vaga escura,
uiva o nordeste aflitamente.
Que mágoa anónima satura
este ar de Inverno, este ar doente?

Alma que vogas a gemer
na tarde anémica, de vento,
como se infiltra no meu ser
o teu esparso sofrimento!

Que viuvez desamparada
chora no ar, no vento frio,
por esta tarde macerada
em que a esp'rança se esvaiu!...


domingo, 22 de agosto de 2010

António Gedeão

Na revista «Pública» de hoje vem uma entrevista interessante com a filha de António Gedeão (pseudónimo de Rómulo de Carvalho), Cristina Carvalho. Pareceu-me uma personalidade muito interessante, com opiniões com que me identifico no que diz respeito à semelhança entre homens e mulheres (nada feminista como eu) e que deve ter livros interessantes, que vou ter que ler. Ou não fosse ela filha de um poeta que põe todo o universo em verso, de uma forma simples e tocante. Um poeta de emoção pura, de palavras puras, de lágrimas puras...
Levou-me esta entrevista à procura dos poemas de António Gedeão, que já não lia há tanto tempo. Reli os que já conhecia (Venho da terra assombrada, do ventre da minha mãe; não pretendo roubar nada nem fazer mal a ninguém. Só quero o que me é devido por me trazerem aqui, que eu nem sequer fui ouvido no acto de que nasci... «Fala do homem nascido»; Encontrei uma preta que estava a chorar, pedi-lhe uma lágrima para a analisar...«Lágrima de preta».
Mas não são estes poemas, já bem conhecidos, que eu quero destacar aqui. Encontrei no «Poema do Homem Só» o retrato do homem de sempre e, portanto, do homem e da mulher do séc. XXI. Aqui fica:

Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.

Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem,
Os astros não se explicam:
arrefecem.

Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de dentro se refracta
nenhum ser nós se transmite.

Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.

Dão-se os lábios, dão-se os braços,
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota, 
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.


Mas este íntimo secreto
que no silêncio concentro,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarce,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se e desflorar-se,
é nosso, de mais ninguém.  

   ( Teatro do Mundo )

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Fantasia

«Dá rédea solta à fantasia,
nunca é em nossa casa
que o prazer se encontra.»

                                                
John Keats
(Fantasia, séc. 19)

Discutível, mas percebe-se a ideia. A fantasia pode-nos levar para fora, sem nunca sair. É o que muitas vezes nos acontece, quando escrevemos.


sábado, 24 de julho de 2010

A PÉROLA de John Steinbeck


John Steinbeck é mais um prémio Nobel (1962) que li ultimamente. Esta pequena história, de leitura simples, mas ao mesmo tempo de grande profundidade na análise que faz dos sentimentos humanos e da complexidade da vida, devia por isso ser uma leitura mais divulgada ao nível dos alunos e das escolas, como o foi, aliás, noutros tempos. Esta obra teria de certeza mais interesse para os jovens das nossas escolas, despertaria neles mais interesse pela leitura, do que muitas outras que constam nos programas, que exercem neles o efeito contrário (não ler mais nenhum livro nos tempos mais próximos).
A Pérola é uma alegoria baseada num conto popular mexicano, que nos mostra como um objecto muito precioso ou um acontecimento feliz na vida de um ser humano se pode transformar na coisa mais abjecta ou na maior tragédia, para si próprio e para os outros que o acompanham. É desta forma que a Pérola do Mundo, que representa para Kino a esperança de uma vida nova, com dinheiro para um casamento na Igreja e para educar o seu filho, se transforma na maior tragédia da vida dele, pondo toda a sua família em perigo de vida.
Devido à ganância desmesurada dos compradores de pérolas de La Paz (nome curioso da aldeia em que vivem) e porque não quer seguir os conselhos da sua mulher Juana, mais realista ou talvez menos persistente do que ele, Kino ultrapassa os seus próprios limites levando ao drama final em que o filho de ambos, ainda bébé, morre.
Se o bem se pode transformar em mal, fica implícito o inverso: muitos acontecimentos infelizes ou desagradáveis que nos acontecem, podem-se tornar em qualquer coisa de útil e proveitoso no nosso caminho.
É por esta dupla virtude, que gostei tanto desta história. Steinbeck mostra-nos que tudo tem limites e que o dinheiro não paga tudo. Actual, mesmo nos tempos que correm!

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Inspiração

Para quem anda à procura dela, aqui fica:

A Inspiração é a hipótese que reduz o autor a um papel de observador.
Paul Valéry (1871/1945)



Um leigo pensaria que, para criar, é preciso aguardar a inspiração. É um erro.
Stravinsky (1882-1971)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

António José da Silva ( O Judeu)


Quando lia a «História de Portugal» de Oliveira Martins, no capítulo dedicado a D. João V, que o autor descreve como balofo e carola, mestre em liturgia, o rei-sol cá do burgo, com a mania das grandezas (veja-se o Convento de Mafra com o seu sino de 800 arrobas,por exemplo), um perdulário, entre muitos outros epítetos bem ao género deste historiador, deparei com a seguinte frase:
«O inchado Salomão de Mafra, o lúbrico devoto de Odivelas, o vencedor da batalha das freiras foi o que mandou queimar António José, por este se atrever a chamar-lhe Grande Governador da Ilha dos Lagartos.»
Claro que o autor se refere a D. João V e este António José é o autor dos autos que nessa época eram representados com grande êxito na Ópera do Bairro Alto. Por nostalgia e curiosidade, peguei nas Obras Completas  de António José da Silva, que estudei na Faculdade de Letras nos gloriosos anos setenta, e reli «Anfitrião ou Júpiter e Alcmena», de que já não me lembrava nada, claro! Foi uma leitura divertida e amarga, ao mesmo tempo, por motivos vários. Ao mesmo tempo que o texto me fazia rir com as permanentes trapalhadas ao gosto da época, ressaltava dele  o facto dramático de um autor tão promissor para a História do Teatro e da Literatura em Portugal poder ser queimado numa fogueira, por motivos políticos, religiosos ou simplesmente por não agradar a um rei. Não devia ter acontecido, não só por ser um atentado à vida humana, um acto infame, mas por ter ficado o nosso teatro sem um autor aos trinta e tal anos. 
Se quisermos, nos seus autos podemos encontrar imensas referências ao estado da nação e das «leis» que regiam os tempos em que o Judeu teve a infelicidade de viver. Saliento apenas esta:
Tirésias: «Dos ânimos e afectos interiores, só os deuses supremos são os juízes; que nós, os ministros da terra, sentenciamos pelo que vemos exteriormente...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Matilde Rosa Araújo


Boa noite, passarinho

-Boa noite, passarinho,
Onde é que tu vais dormir?
-Vou dormir num ramo verde
Com o luar a luzir.

-Boa noite, passarinho,
Onde é que tu vais sonhar?
-Vou sonhar no bosque verde
                                          Tão verde à luz do luar.

                                          -Boa noite, passarinho,
                                          Estás cansado de voar?
                                         -Escondo a cabeça na asa
                                          E já posso descansar.

                                          -Boa noite, passarinho,
                                          Não dormes dentro de casa?
                                          -Se eu poiso num ramo verde
                                          -E o lençol é a minha asa?

                                          -Boa noite, passarinho,
                                          Qual é o teu candeeiro?
                                          -São os olhos amarelos
                                          Do mocho do candeeiro.

                                          -Boa noite, passarinho...
                                           Um soninho descansado...
                                           -Quando acordar de manhã,
                                           Vou cantar ao teu telhado!

                                                                        Matilde Rosa Araújo (Mistérios)
                                         

No dia seguinte à tua morte, lembro-te como aquela escritora de olhos doces, de voz terna e cheia de uma bondade vinda do amor à natureza, aos pequenos seres e às pequenas coisas. De coração do tamanho de uma criança.
Boa noite, Matilde, descansa no teu ramo verde e dorme um soninho descansado, o teu canto ficará para sempre a lembrar-nos de ti.

domingo, 4 de julho de 2010

«Citações e Pensamentos» de Agostinho da Silva


Aqui ficam alguns dos pensamentos deste homem e filósofo, que sabia «pensar» e que teve a sabedoria de dizer que «O homem não nasceu para trabalhar, nasceu para criar.»

Escola- Todas as nossas escolas são escolas de guerra, pelo recrutamento, porque só queremos os mais aptos ou aqueles que julgamos mais aptos, pela disciplina do curso e do comportamento, e pelo nosso objectivo de, no final dos estudos, os repartirmos por armas. (Espiral).

Educação- Por muito cuidado que se tenha, educar é podar; deixar crescer com toda a força o ramo que nos agrada. (Espólio)
               -A publicidade é uma fábrica de perfeitos fregueses, ávidos e estúpidos; a educação, que lhe é paralela, fabrica cidadãos servis e crentes. (Espólio)

Elogio- Tudo o que os outros me elogiam foi o fácil; foi o complicado e o misterioso tudo o que eles ignoram ou censuram. (Espólio)







domingo, 27 de junho de 2010

Cartas Sem Moral Nenhuma

                                                              Catedral de Sevilha
Neste ano em que se comemora o centenário da República, resolvi dedicar algum tempo à obra de Manuel Teixeira Gomes, 7º Presidente da 1ª República, entre 1923 a 1925, cargo a que renunciou para se dedicar à produção literária (ou para fugir à enorme perturbação política e social da época?).
Comecei por ler o romance «Maria Adelaide», única obra deste autor que tinha em casa, e achei-o tão dIferente e original em relação ao seu tempo que resolvi ler mais qualquer coisa. Daí até encontrar numa feira do livro «As cartas sem moral nenhuma», foi um passo. A Bertrand editou as obras completas deste autor há alguns anos e é fácil encontrá-las a bom preço. 
Foi um daqueles casos em que o título do livro nos agrada, mas depois não corresponde em nada àquilo que esperávamos. Embora nalgumas cartas o autor relate acontecimentos divertidos e interessantes para o estudo do meio socio-cultural da época (este é um dos grandes interesses que pode oferecer a correspondência), rapidamente me começou a enfastiar a sua linguagem muito rebuscada e difícil. Confesso que já não tenho paciência nem tempo para livros difíceis.  
Mas como todas as cartas iniciais eram escritas de Sevilha, terra natal de meu avô materno e padrinho, Mariano de seu nome, de quem  guardo gratas recordações de infância (eu era a sua «jóinha»), lá continuei a ler. Deste modo, fiquei a saber mais algumas coisas de Sevilha, dos seus costumes e da sua catedral, a maior de Espanha, que já visitei mas não recordo quase nada (só me lembro de subir à torre e ver Sevilha a meus pés, emocionada por aí ter começado, algures, este ramo da minha família).
Para quem tenha paciência e curiosidade, vale a pena ler. Pela sua ironia sarcástica, principalmente. Como neste excerto: 
«Hoje cantava-se una infindável missa de pontifical a que assistiam inúmeros cavalheiros de oficial importância, esses inconfundíveis  aspirantes a estadistas que em Espanha se distinguem dos outros mortais pelo seu perfil de chocolateira - com o bico invertido - e são ultradecorativos.» 

domingo, 20 de junho de 2010

Cem anos de Solidão


No dia do adeus a Saramago, terminei finalmente a obra de outro prémio Nobel, «Cem anos de solidão», de Gabriel García Márquez, seis anos mais novo que Saramago. 421 páginas para mim é muito, e se consegui chegar ao fim é sinal que o livro me interessou, não obstante a sua estrutura em círculo ou em espiral que nunca mais acaba. Mas Gabriel García Márquez é na realidade um grande escritor, cujo realismo me interessa mais do que o seu Realismo Fantástico. Ao escrever a história da Família Buendía como «...uma engrenagem de repetições irreparáveis, uma roda giratória que teria seguido às voltas até à eternidade, não fosse o desgaste progressivo e irremediável do eixo.» (pág. 400), o autor acaba por fazer a história do mundo e de todos os homens. Incluindo dele próprio, pois há muito de autobiográfico nesta obra (como sempre, aliás).
A roda do mundo continua a girar, implacável, por enquanto, determinando os dias e a hora de nascer e de morrer.


terça-feira, 4 de maio de 2010

«Cem anos de Solidão»


Criei este blogue para falar de livros, os meus (ainda agora comecei) e os dos outros autores, claro!


Ando agora a ler um livro que há muito queria ler: Cem anos de solidão, de Gabriel García Marquez. Mal conhecia este autor, só tinha lido uns contos dele, estou agora a descobri-lo.


Na contra-capa, o próprio diz:


...Descobri, ao acordar, que tinha maduro no coração, o romance de amor que havia ansiado escrever há tantos anos.


Como é curioso! Ressalvando as devidas distâncias de um dos maiores escritores do nosso tempo, ou mesmo de sempre, acho que o mesmo está a acontecer comigo. Será que um dia conseguirei escrever o tal romance que está a amadurecer dentro de mim? Será que atingirei esse estado de maturidade?


quinta-feira, 29 de abril de 2010

Carlitos, o Corajoso


Ainda não vos apresentei o meu segundo livro, Carlitos, o Corajoso.

Já deve estar à venda em todo o lado, Continente, Modelo, Fnac, Almedina, Bulhosa, Bertrand....

É um conto sobre a vida difícil de um menino que não teve a sorte de nascer num berço de ouro, mas que tem a sorte de ser «artista», de ter um talento dentro dele, que preenche a sua vida e lhe vai dando coragem e força para as adversidades do dia-a-dia. A família e o amor que os une tornam Carlitos e os irmãos uns seres felizes e vencedores, quando no final o pai consegue sobreviver à doença e continuam todos juntos.

Há quem diga que todos os livros são auto-biográficos, ou têm algo de nós. Concordo plenamente. Tudo o que escrevo é a expressão mais simples de tudo o que vivi e senti.

domingo, 11 de abril de 2010

O meu Pinóquio de madeira


Mais uma foto da sessão de ontem na livraria Bulhosa, para poderem ver melhor o pequeno Pinóquio de madeira que comprei numa loja de artesanato em Serpa, que fez um sucesso. Deu-me um jeitão para explicar aos meus meninos quem era este boneco de madeira, pois só um ou dois é que o conheciam.

sábado, 10 de abril de 2010

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Terminei hoje de ler as famosas Aventuras de Pinóquio, de Carlo Collodi. Há uma edição na Porto Editora, muito barata. Recomendo vivamente a sua leitura, o boneco Pinóquio é mesmo muito divertido nas suas diabruras. É o boneco mais humano que eu conheço, com todos os defeitos que as crianças têm, mas acaba por aprender à sua custa as lições que a vida lhe vai oferecendo, o que às vezes os humanos têm muita dificuldade em fazer.
Diz-lhe a Fada Madrinha(em sonhos):
«-Muito bem, Pinóquio! Graças ao teu bom coraçãoo, perdoo-te todas as diabruras que fizeste até hoje. os filhos que cuidam amorosamente dos pais nas suas desgraças e doenças merecem sempre louvor e muito afecto, mesmo que não possam ser citados como modelos de obediência e de bom comportamento. Ganha juízo para o futuro, e serás muito feliz.»

terça-feira, 6 de abril de 2010

As aventuras de Pinóquio


O meu fascínio por este boneco de madeira (depois de o ter posto a viajar pelos oceanos) levou-me a ler o livro original, aquele que Carlo Collodi foi escrevendo em 36 episódios, publicados primeiro num jornal infantil, surgindo em livro em 1883. É um exercício curioso comparar o livro original, cheio de aventuras imaginosas que foram sendo refeitas ou eliminadas, consoante os autores que retomaram este tema . No original, o pobre do Pinóquio até é enforcado, mas não morre, claro. Quem mais alterou a história original foi Walt Disney, no seu filme animado de 1940, que também tive a sorte de ver numa daquelas sessões para crianças da Cinemateca, no Palácio Foz. Foi a versão da história do Walt Disney que perdurou, em detrimento da versão original. Mas é bem engraçado ler o livro tal como foi imaginado e descobrir as diferenças com o Pinóquio da nossa infância.


No 1º capítulo, aparece uma personagem que é o mestre Cereja, que encontra um bocado de madeira que chora e ri como uma criança e que ele quer usar para fazer uma perna para uma mesa. Mas a madeira começa a falar e a gritar e ele fica assustadíssimo, até que cai desmaiado no chão.

Dia um


Hoje é o primeiro dia do...resto da minha vida...

Não era nada disto que eu ia dizer, embora também seja verdade!

Hoje é o primeiro dia do blog «Pinóquio». Chama-se assim porque o meu primeiro livro de contos chama-se «Pinóquio nos Oceanos», da editora Edi9, e porque este pequeno boneco de madeira me fascina.